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“AI First” precisa de complemento

Surgiu agora nas vagas de emprego essa expressão: AI First.

Vagas de UX pedindo AI First. Design de interação humana pedindo AI First.

Eu fico preso numa pergunta simples: primeiro em relação a quê?

“Mobile First” fazia sentido porque resolvia um problema concreto. Antes, se projetava para o desktop e depois se espremia o layout no celular, perdendo qualidade no caminho. Mobile First inverteu isso: comece pela restrição menor, expanda depois. Tinha um “antes” e um “depois” claros.

“AI First” não tem isso. É um jargão emprestado de uma fórmula que funcionava, colado numa ideia que ainda não foi pensada até o fim.

Inteligência artificial não é um cérebro lógico fazendo cálculo rápido. Modelo de linguagem não raciocina de forma simbólica, ele gera resposta a partir de padrão estatístico aprendido num volume gigantesco de texto. É menos calculadora e mais um tipo de intuição treinada em escala industrial.

Se nem é uma ferramenta de lógica pura, o que significa colocar ela “primeiro” num processo que existe, justamente, para resolver problema humano com julgamento humano?

Na prática, no dia a dia de um UX designer, IA entra em quase toda etapa do trabalho. Usada pra estruturar a primeira pergunta de um problema antes de se sair projetando, levantar hipótese, sintetizar entrevista, gerar alternativa de solução e depois criticar a própria alternativa. Eu mesmo uso bastante na escrita de texto de interface, em documentação, em revisão de fluxo, em pesquisa de referência de mercado comparando com o que o concorrente já fez. Peço pra ela apontar que situação fora do óbvio pode acontecer em um projeto, que eu não mapeei. Algo que eu não vi. Posso ainda perguntar “o que um UX sênior faria diferente” no meu próprio trabalho.

Mas tem parte do processo onde ela pode entrar, mas que nós, no começo da onda da IA, ainda estamos apenas tateando. Análise de métrica direto no Mixpanel, que é uma ferramenta que rastreia ação específica que o usuário faz dentro de um produto, ou no GA4 (Google Analytics 4), que mostra de onde o usuário veio e por onde ele navegou. Ou seja, pegar os dados brutos de comportamento dos usuários. Quantos abandonaram um fluxo, em que etapa, com que frequência e usar IA pra interpretar esses números, achar padrão, sugerir hipótese. Tipo jogar uma tabela de funil de conversão para IA e perguntar “onde tá o maior ponto de abandono e por quê?”.

Outras formas de uso seria a geração automática de perfis de usuário a partir de entrevistas; affinity mapping em escala, o famoso quadro de post-its coloridos onde se agrupa informação solta até formar padrão, só que feito com um volume de dado que manualmente seria exaustivo. Além de accessibility review automatizada, uma forma de garantir que a interface funcione bem pra pessoas com algum tipo de limitação, visual, motora, cognitiva e/ou auditiva.

Usar IA pra esse tipo de tarefas ainda não virou hábito pra maioria dos designers, e talvez devesse virar. O que só mostra o quanto dá pra expandir esse uso dentro da ação de projetar. Só que tudo parte das decisões e planejamento do designer, e é exatamente esse o ponto.

Em nenhuma dessas etapas a IA decide o que fazer primeiro. Ela entra onde o designer a chama, no momento que o designer escolhe, pra resolver o que foi definido como problema. Quem estrutura o processo de explorar o problema antes de projetar a solução é quem projeta. Quem decide o que vale a pena criticar é quem projeta. A IA participa, mas não inaugura o processo.

Acho que ninguém perguntou isso antes de escrever em uma vaga de emprego a definindo como “AI First”. Soa como um significante vazio. Soa estratégico, mas quando você pede pra definir, a resposta quase sempre desmonta.

Antes do usuário? Antes do processo? Antes do pensamento crítico do designer?

IA é ferramenta. Boa ferramenta, rápida, útil em várias etapas do trabalho. Mas ferramenta não vai na frente de quem projeta a solução. Vai na mão de quem a projeta.

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