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Dando cor às ideias

Categoria: Literatura

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A CARTA

Caro Almir do telefone igual ao meu, porém com DDD 28, acredito que sua oficina esteja indo de vento em popa, uma vez que recebo ligações de clientes seus até no sábado 6 da manhã pedindo guincho, inclusive recentemente você contratou um eletricista para a oficina! Sei disso pois os clientes agora também começaram a perguntar por ele.

O negócio é o seguinte, visto que seus negócios estão indo bem, eu quero o pequeno incentivo de 10 mil para não contar a sua ex-esposa, que vive me mandando torpedo cobrando a pensão da sua filha, que na verdade você tem grana e finge não ter. Afinal o que são 10 mil contra um processo por não pagamento de pensão não é verdade?

Sinceramente, um amigo.

Obs.: Rafael ligou procurando o eletricista, disse que é urgente. Grande abraço!

 

Vitor Victor

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A REDE

A formiga andava sobre a mesa momentos antes de ser esmagada por um dedo.

“Não mata a bichinha coitada! Ela não fez nada!”

“Se deixar ela conta o caminho pras amiga.”

 

Vitor Victor

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CONTATO IMEDIATO

A apreensão  tomava conta de seu corpo, nessa altura dos acontecimentos toda a nave já havia  sido vítima da criatura. Armado até os dentes com lança-chamas e granadas de  fumaça já não sabia mais se era o caçador ou a caça. Como é possível que uma  gosma preta com aproximadamente 10 cm pudesse derrubar 2 adultos, uma criança e  um cachorro apenas tendo contato com a pele?

Os  nervos pareciam que se partiriam, de repente “AHHH” uma goteira vinda da  ventilação quase o mata do coração quando cai em sua frente. Respira fundo. E  continua…

Com  os óculos especiais de calor avista a criatura. Ela é mais rápida do que  imaginava, não há tempo para atirar!

De  frente para o monitor assistindo apreensivo ao filme, penso como o herói irá se  safar dessa e no mesmo momento percebo algo com o canto do olho se movendo  entre a estante e a porta. Ainda assustado pelo filme, mas calmo e movido pela  curiosidade viro lentamente a cabeça para ver o que se move ali e percebo que o  vulto tem a mesma reação!

Incrédulos,  eu e o vulto, ficamos nos observando por aproximadamente 3 segundos que  pareciam parar o tempo, pensando: “Que diabos?!”

Rapidamente  quando termina o estranhamento o ratinho que me observava da porta e eu caímos em  si do perigo para ambos e num movimento quase “the fláshico” ele volta correndo  para baixo da estante, enquanto eu… Bem eu faço o que qualquer homem de 20  poucos anos faria. “MÃEEEE!”

Ora,  não me leve a mal, mato quantas baratas e insetos forem necessários, removo  quantos lagartixas forem precisas, lido com quantas lacraias estiverem  incomodando, mas UM RATO?! Ele te observa com os olhinhos cheios de expressão,  tem reações inteligentes, aparenta saber coisas que você não sabe, ELE ESPIRRA!  Definitivamente não iria subir em uma cadeira e gritar, mas com certeza não  colocaria minhas mãos nele para colocá-lo para fora e muito menos cometeria o  assassinato de meu parente mamífero.

A  cena a seguir seria hilária se não fosse trágica, com a ajuda da minha mãe  armada de uma vassoura, já não sabendo mais se eu era o caçador ou se havia me  tornado a caça, juntos fechamos todas as entradas da casa e abrimos caminho  para a saída, fizemos o rato correr de baixo da estante que como um raio tentou  fugir para o banheiro, mas sem perceber que a porta estava fechada, assustado,  bateu com a cabeça nela, ainda zonzo, se dirigiu a sala, que tinha caminho  livre, pois não havia porta barrando o caminho, mas se deparou comigo assustado, tentando  assustá-lo, o que surpreendentemente deu certo.

Em um  desfecho incrível, minha mãe da uma vassourada no pequeno invasor que,  provavelmente, o fez ter a viagem mais rápida de sua vida. Da copa para o lado de fora da casa em menos de 1 segundo.

Nessa  altura do campeonato, a criatura correu para baixo da escada do quintal, onde  ficam as ferramentas, envolto na noite escura, com a promessa de que  retornaria.

 

Vitor Victor

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DIÁRIO DE UM BAGUNCEIRO

1º dia:

Ao ver o estado em que se encontrava minha mesa de trabalho e não somente ela, todo o estado de caos que estava meu quarto decidi não mais ser  bagunceiro. Uma decisão simples. Direta. O primeiro passo será arrumar toda essa bagunça. Criar uma organização que faça sentido para mim.

2º dia:

Levei um dia inteiro para arrumar tudo. Ontem a dedicação para “desbagunçar” foi tanta que a organização se estendeu naturalmente ao guarda-roupa. Agora todas as roupas estão nos devidos lugares, a mesa impecavelmente organizada, o quarto um brinco.

3º dia:

Os primeiros sinais de que a bagunça quer voltar a vida começaram a aparecer. Pequenas coisas “surgem” fora do seu lugar. É possível se notar em cima da mesa um ou outro papel que não deveria estar ali e um par de moedas. A bagunça não se dará por vencida tão fácil. Vou organizar esses detalhes e traçar um plano para que isso não se repita.

4º dia:

Minha experiência de ontem me fez pensar, notei que para evitar que a bagunça ressurja devo enfrentar sua aliada, a preguiça. Toda vez que me entrego a essa indolência a bagunça avança. Devo ficar atento a preguiça, ela é perigosa.

5º dia:

Tenho dúvidas se não dar espaço a bagunça é tão simples como imaginei, combater a preguiça tem sido desgastante. Evitar chegar da rua e jogar tudo em cima da mesa para deitar não tem sido fácil. As coisas demandam muito esforço para irem para seus devidos lugares.

6º dia:

Enfrentar a desordem tem se transformado uma guerra, por mais que me esforce as coisas tem saído de controle. Coisas não param de pipocar fora do lugar, a mesa se tornou um campo de batalha, onde o tempo todo a preguiça me apunhala pelas costas. Gasto tanto tempo na mesa que pares de meias e bolsas tem invadido o chão enquanto me mantenho ocupado com ela.

7º dia:

Começo a perceber que me meti em um jogo muito perigoso. A bagunça sempre soube de sua superioridade, esteve esse tempo todo brincando comigo, num jogo doentio. Desde o princípio ela tem usado minha sanidade como diversão.

8º dia:

A bagunça não mais esconde sua crueldade, ela ri na minha cara me torturando com seus jogos. A guerra é muito pior do que imaginava, além da preguiça tenho descoberto que a bagunça tem outros aliados. O tempo joga a seu favor, conforme esse agente duplo abandona meu lado da guerra e fico sem ele, mais difícil fica de controlar as coisas, não estou certo se conseguirei sair dessa, me entregar não é mais uma opção, tracei um caminho sem volta.

9º dia:

A desordem cresce em várias frentes. Não tenho como enfrentar isso. A cama se encontra em estado de calamidade, estive tão dedicado a enfrentar cara a cara a bagunça que não percebi que as coisa em volta ruíam. Roupas, a cama desarrumada, arquivos no computador espalhados, a mesa que foi meu refúgio de controle já não me pertence mais. Itens corriqueiros como um pendrive e papéis e outros inexplicáveis como copos, sim no plural, copos, ocupam a mesa. As roupas espalhadas têm se reproduzido assexuadamente em progressão geométrica, estão em toda parte! A guerra se tornou constante e pesada, não sei se sobreviverei a esse inferno.

10º dia:

Após notar que não havia espaço para dormir, pois a bagunça instalou seu Q.G. onde um dia foi minha cama, decidi recuar. Não tenho mais forças… fugirei e viverei hoje, para quem sabe um dia voltar para enfrentá-la. Talvez com ajuda… ou quem sabe trazendo alguém que seja capaz de enfrentar o que eu não pude.

 

Vitor Victor

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LIGAÇÃO DA MADRUGADA

– Anda, joga logo, é sua vez.

– Estou pensando, calma.

Aquele jogo de buraco não ia a frante com Washington demorando tanto, mas também, aquela hora da madrugada quem poderia se concentrar.

A Agência Espacial a Serviço da Busca por Inteligência Extraterrestre funcionava por turnos, e a madrugada era de Brian e Washington. O monitoramento consistia em enviar e receber sinais ao espaço e procurar por movimentações que poderiam ser provas de vida extraterrestre. – “Tudo isso é muito bonito na teoria, mas na prática é passar a madrugada sem fazer muita coisa, as vezes registrando um cometa fora de órbita” – Costumava dizer Washington para sua esposa.

Chovia muito naquela noite, Brian estava cada vez melhor no Buraco, fazendo Washington passar por mals bocados constantemente.

– Você já me deve um ingresso para o jogo haha. – Dizia ele achando graça da desgraça do colega.

Brian que no passado foi um grande entusiasta no começo da carreira, agora já não acreditava tanto assim em vida inteligente no espaço. Claro, vida num universo tão grande definitivamente existiria, mas daí acreditar que uma comunicação entre essas espécies com os humanos fosse possível era coisa do passado. Ele não era mais tão inocente.

– Vamos lá, ta na hora de virar esse jogo.

– Shhh, escuta.

– O que?

Brian levantou para olhar o painel, quando viu um sinal sendo detectado. Whasington agora levantava apressado derrubando as cartas e começava a efetuar os procedimentos padrão.

– Eu nunca vi algo assim antes. – Dizia Brian surpreso.

– Nem eu, de onde está vindo?

– Estou rastreando, me dê mais 1 segundo.

– Rápido, vamos perder o sinal.

– Achei! Vem das proximidades de Júpiter.

– Vou isolar a área… consegui. Vem de Ganimedes! – Washington não podia acreditar.

Como era possível, anos trabalhando na NASA e nunca nada assim tinha sido visto. Um sinal, claro, buscando comunicação.

– Sumiu! Não acredito, droga.

– Decifrou?

– Não mas gravei, foi muito rápido, não deu tempo pra nada. – dizia Brian preocupado.

– Mas pelo menos está registrado, ninguém vai achar que foi delírio nosso.

Existia uma piada interna na NASA a respeito de um antigo funcionário aposentado, que alegava ter conversado por mais de 1 hora com um extraterrestre. Como nunca houve provas, e por ter sido tarde da noite, todos achavam que se tratava de um delírio causado pelo sono.

“Eu sei o que vi! Ele queria saber sobre Páscoa!”

“A data comemorativa?”

“Não, a ilha! Dizia algo sobre telefonar para casa”.

Claro, o veterano não passava de chacota agora, principalmente por citar que os E.T.s o convidaram para uma social na lua. Levou o mês todo tentando convencer seu superior a mandá-lo ao espaço para encontrar seus amigos alienígenas, mas não teve sucesso no pedido.

– Certo, não vamos perder tempo. Eu vou começar a analisar a mensagem e você tente um novo contato com eles. Mande o sinal para as mesmas coordenadas. – Washington instruia Brian.

– Mas que tipo de sinal?

– Em… espera… eu… nunca vi um sinal assim, que formato é esse?

– Continua analisando, tenta decifrar. Vou mandar em código Morse.

Washington continuou uma análise incessante no sinal recebido. Todos na NASA estavam boquiabertos com o que havia acontecido. Nunca se tinha ouvido falar de uma atividade registrada tão surpreendente.

Agora Brian e Washington trabalhavam em tempo integral, apesar de seus superiores quererem “assumir” a descoberta, eles estavam decididos a acompanhar cada passo do que estava acontecendo. Sua liderança na pesquisa só foi permitida pois apenas eles sabiam a localização exata de onde o sinal havia sido enviado.

O sinal era absurdamente estranho, 1 mês e meio havia se passado desde o incidente e Washington não havia conseguido decifrá-lo. Exausto e decidido a conseguir ele continuava seu trabalho. As coisas na Agência Espacial já haviam esfriado. A animação havia diminuido após esse tempo sem nenhum resultado nas pesquisas.

Brian havia se dedicado por todo esse mês em uma comunicação com os E.T.s, com mensagens de rádio ele procurava as formas inteligentes de vida que enviaram o sinal de uma das luas de Júpiter.

Foi numa madrugada, novamente sozinhos em seu turno. Brian e Washington praticamente moravam na Agência Espacial agora. Brian enviara incessantemente uma mensagem para Ganimedes que dizia: “Recebemos o seu sinal, mas não o entendemos. Por favor, reenvie usando esta linguagem e este código de transmissão”. Sem sucesso até então, quando menos esperavam o sinal reapareceu!

– São eles! São eles! – Gritava Brian para Washington, que largava o que estava fazendo para ajudar na comunicação.

– Analisando o sinal… BRIAN! ESTÁ EM CÓDIGO MORSE!

– O que diz?

“Nós não estamos falando com vocês”.

 

Vitor Victor